Cinefilando Crítica: A Suprema Felicidade

A Suprema Felicidade

(A Suprema Felicidade)

Ano: 2010

Gênero: drama

Mídia: cinema

Não assisti este novo filme de Arnaldo Jabor, então recorri ao meu amigo Newton X. para realizar a crítica:

Leia.

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Para falar de um filme que celebra a vida, nada melhor que iniciar citando uma mulher.

Uma das mais insuportáveis garotas que já namorei, murmurava sobre minhas frequentes rememorações do passado e da minha nostalgia. Eu nunca entendia as reclamações. O que tem de mal em lembrar coisas boas? E é essa a primeira impressão que externo sobre essa obra, que fala do passado, mas como reflexão para o presente. Não é só lembrar por lembrar, mas para pensar onde estamos.

O recorte cronológico entre o final da década de 30 aos anos 50, mostrado numa interessante narrativa feita de retalhos, lembra os filmes do italiano Federico Fellini e o caminho do pensamento nas nossas lembranças do passado. Era o tempo das chanchadas, dos cabarés, da gafieira, das marchinhas de carnaval e do Rio de Janeiro “cidade maravilhosa”. O “American Way of Life” do Jazz e do Rock desembarcava por aqui, e nós brasileiros digeríamos tudo isso, juntamente com o crescimento econômico, sem ter muito a ideia do que fazer ou do que viria a acontecer. Só se sabia que tudo seria bom.

Paulo, o menino que descobre a vida no filme, logo na primeira cena é acordado pelo barulho do sexo tórrido dos pais no quarto ao lado e do carnaval fora de época que anuncia o fim da Segunda Guerra. Esse duplo êxtase mostra o que o futuro prometia ao menino que se tornava rapaz. A busca incessante de uma celebração do viver, incompreensível e nem sempre exitosa.

Seu avô Noel, interpretado de maneira espetacular por Marco Nanini, é uma pessoa que ao invés de desgastar-se na vida, tornou-se pleno dela. É o papel que melhor define o título do filme, um objeto de busca feita por todos nós e em qualquer idade.

Bobagem ficar falando em papel principal. O amor é a grande estrela, ou mais do que isso, ele é o céu infinito. É nele que tudo se esgota. Sim, é um filme de amor, mas não é um romancezinho barato de novela. É uma reflexão sobre as possibilidades desse sentimento, e triste dizer, como se podia fazer NAQUELA época, em que o orgasmo, esse estado/sentimento também era buscado, mas não nessa forma quase “industrializada” como se faz hoje. O sexo é um componente essencial das descobertas dos personagens e da busca pela plenitude. E é sofrido, reprimido, aflora das maneiras mais inusitadas. Por ele saem dos eixos, ficam à deriva ou penetram nas brumas da incerteza. Infinito como as estrelas, como os deuses e como todos nós.

E a tal suprema felicidade?  O que é? As pessoas no filme tateiam no escuro, buscam onde não há possibilidade. Não é algo a encontrar. O Vô Noel, em belo diálogo chega a dizer que ninguém é plenamente feliz, que felicidade tal como pensamos haver, não há. Só momentos felizes, isso sim é o que temos.

Qual a solução então?

Não há resposta certa. Resta nos rendermos à existência, chamá-la para bailar entre o  imanente e o transcendente, e talvez, quando menos percebermos, estaremos desfrutando da Suprema Felicidade.

Nos aspectos técnicos, as cores, os ângulos e o recriar do Rio, a capital do país na época, são de emocionar. Coisa de gente que sabe o que faz, coisa de artista. O figurino, as cores, as danças que remetem às produções da Embrafilme e compõem o ambiente de nostalgia, estão dentro da proposta do filme.

O roteiro é bom? Depende o que você chama de bom roteiro. Se for essa paçoca hollywoodiana de ‘fatos’ que ocorrem de três em três minutos, esqueça. Ademais, os diálogos pesados não são como essas coisas que se tem nesses filmes aí. Se você gosta dessas coisas vá ver o filme das piranhas assassinas.

Saí do cinema com a sensação de ter visto um bom filme que não tem a pretensão de ser “fácil”, mas falar sobre o que é ser humano: chorar, rir, pensar, gozar e sofrer. Coisa rara hoje em dia.

Não posso acabar sem antes falar um pouco do Arnaldo Jabor, cineasta afastado de seu ofício desde 1986 e atualmente mais dedicado à crônica política, sendo um dos grandes críticos do governo Lula na mídia. Para todos que contei minha ansiedade em ver o filme, ganhei um olhar desconfiado. “Você bandeou para o lado deles” – um amigo de FFLCH me disse. “Não quero nem ver o filme desse reaça”, também me falaram. Mas não liguei. Arte pode ser mais do que isso. Se as opiniões pessoais do artista fossem impedimento para a fruição da arte ninguém leria Jorge Luis Borges ou (só para polemizar) Monteiro Lobato.

Nota: 8,0

 

 

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◊  29-out-2010 Trailer

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2 Respostas

  1. Que bela crítica. Amarrada. Bem argumentada, estruturada e cheia de emoção. Capturou exatamente meus sentimentos quando saí da cabine escura. O filme não acaba ali. Continua na mesa de jantar, na contemplação das coisas, no céu estrelado, no abraço dos amados. Do medo e da entrega. Tudo isso não tem resposta pronta.

  2. Critica perfeita, te envolve do começo ao fim…te faz querer ler o que vem no próximo parágrafo antes mesmo de terminar de ler o anterior…
    Plantou e regou, mas não sabemos o que podemos colher…o que me resta é assistir o filme! PARABÉNS

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