Especial: Amor? – Entrevista do Diretor

Abaixo uma entrevista (disponibilizada no pressbook do filme) com o diretor João Jardim, onde ele fala sobre os motivos da escolha do tema, processo de pesquisa e o trabalho com o elenco:


O que o levou a eleger como tema do seu filme relações amorosas que se

degeneram e evoluem para algum tipo de violência?

João Jardim – Eu estou o tempo todo procurando assuntos que possam render bons

filmes. Temáticas ricas de pesquisar, e que tenham, ao mesmo tempo, um aspecto

cinematográfico interessante. E esse projeto nasceu disso: lendo sobre esse assunto,

o que me chamou atenção é sempre as pessoas envolvidas relatam que se amavam

muito. Quando a violência acontece dentro da relação sempre é por amor. Pelo menos

do ponto de vista delas. Então o que me interessou foi procurar entender e lidar com

esses aspectos subjetivos da relação amorosa. Em que momento a violência começa a

entrar no meio e em nome do quê? Que ingredientes são esses que vão fazendo com

que a coisa evolua pra algum tipo de opressão ou violência?

Eu percebia que essa era uma lacuna na discussão do tema, tratado sempre do ponto

de vista político, da violência contra a mulher, sem levar em conta o aspecto subjetivo.

E procurei abordar o lado transcendente da questão. Fazer um trabalho de construção

e questionamento em torno do tema, capaz de lançar um novo olhar sobre ele.

O filme é quase uma instalação pra mim. Pensei o tempo todo na interatividade. No

que ele provoca. A provocação já está no título. Eu queria provocar a reflexão.

__

Definido como “uma mistura poética de documentário com ficção”, Amor?

é um mosaico de depoimentos verídicos, interpretados por atores. O que o

levou a fazer essa escolha?

João Jardim – Eu queria fazer um documentário sobre o tema. Mas logo no início

do processo, eu percebi que, quando eu conseguia, conversando com as pessoas,

tirar delas coisas muito interessantes, eticamente talvez não fosse justo usar

aquilo. Porque eu poderia de alguma forma prejudicá-las; a elas ou ao parceiro

delas. Mesmo se dispondo a falar, podia ser que, seis meses depois, com o filme

pronto, que elas se arrependessem. E parceiro, filhos, outras pessoas implicadas

no depoimento poderiam também não permitir. E eu teria que respeitar. É muita

arrogância você achar que pode fazer o que quiser com a vida das pessoas. Eu

não penso assim. E tem aí uma questão jurídica também. Então, logo ficou claro

pra mim que não podia ser um documentário. Tinha que ser um filme com atores,

mesmo que fosse um filme de depoimentos.

A escalação do elenco, com a participação inclusive de nomes conhecidos do

público, foi intencional. Era uma forma de garantir que a atenção ficasse voltada

para o tema e, ao mesmo tempo, de tornar aquelas histórias universais. Os atores

famosos vieram para criar esse distanciamento. Para que não sobrasse espaço para

dúvida de que o que está sendo visto é um ator interpretando uma história. E que

essa história pode ser minha, sua ou de quem for.

__

O processo de pesquisa envolveu a coleta de mais de 60 depoimentos de

homens e mulheres que viveram relações amorosas envolvendo algum

tipo de violência. Que critérios determinaram a escolha dos oito que

figuram no filme?

João Jardim – O filme foge intencionalmente das classes sociais mais baixas,

procura mostrar que isso é uma coisa que atinge todas as classes sociais. Não me

interessava o caso mais estranho do mundo ou o caso mais estapafúrdio. O que

interessava era o sentimento que havia por trás daquelas histórias, e que fazia com

que elas se tornassem próximas de mim, de você, de qualquer um. Eu costumo dizer

que é um filme sobre mim, você e todos nós. O que guiou muito a gente o tempo

todo foi o desejo de universalizar essas histórias.

Há uma tendência a fazer uma leitura simplista da opressão nas relações amorosas

e taxar de doentes as pessoas que se envolvem nesse tipo de situação. Mas há um

outro aspecto, relevante, que não é levado em conta: é que elas viveram coisas

muito intensas com os seus parceiros, mesmo que já tivesse alguma violência lá,

desde o princípio.

E eu queria que o filme remetesse ao aspecto lúdico, prazeroso, carinhoso do amor.

Porque é isso que faz com que as pessoas não consigam se desligar.

__

Como foi o processo de trabalho com o elenco?

João Jardim – Eu procurei, antes de mais nada, escalar um elenco de pessoas que

eu considerava inteligentes, e capazes de fazer uma leitura interessante e rica

daqueles textos. Basicamente o que eu queria é que os atores incorporassem os

depoimentos como sendo deles e não que criassem um personagem fora deles.

O primeiro passo era decorar o texto. Depois, a gente ia ensaiando e trabalhando.

Sempre a partir do que eles traziam. Não tinha uma visão pré concebida. Como é

esse personagem, onde ele mora, de onde ele vem, nada disso importava. O que

importava era contar cada uma daquelas histórias como se elas pudessem de fato

ter acontecido com eles. Se alguma coisa no texto perdia o sentido quando era

falada, ou não funcionava, aquilo era cortado. Foi um trabalho de repetição, a

partir das coisas que eles iam fazendo, meu trabalho era provocar as escolhas deles,

indicar um caminho.

A grande diferença do trabalho de ator nesse filme, na minha opinião, é que, num

filme normal, ele tem que compor um personagem que atua hoje, aí passam-se três

dias na vida dele e ele atua mais um pouco, e passam-se mais quatro dias e ele atua

mais um pouco. O personagem tem que ter uma continuidade. Em Amor?, os atores

tinham que dizer o texto daquela maneira uma única vez, ou fazer diferente todas

as vezes, se preferisse, mas ele precisava incorporar o texto de uma tal maneira que

parecesse que aquilo está sendo dito pela primeira vez. O mais importante para o

trabalho era justamente o frescor. Se fosse uma interpretação cristalizada, pra ser

repetida, não funcionava.

Então a gente ensaiava até ficar “quase muito bom”, de forma que quando ficasse

muito bom já fosse diante da câmera. Tanto que, na hora de filmar, não tinha

ensaio. Rodava a primeira, direto; rodava várias vezes se fosse necessário, mas não

tinha ensaio.

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◊  08-04-2011 – Trailer

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